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Receitas Tolerantes

Sou uma entusiasta da cozinha e da alimentação saudável, e cozinho com amor :)

Receitas Tolerantes

Sou uma entusiasta da cozinha e da alimentação saudável, e cozinho com amor :)

Hoje vou contar-vos uma história...

Não costumo falar muito deste assunto. Aliás, é mentira. Anuncio abertamente e orgulhosamente a quem quiser ouvir que já pesei 100kgs. Perdi-os, com muito esforço e orgulho, com 19 anos. Alguns de vós que estão a ler conheciam a Inês do "antigamente" com diz um dos meus melhores amigos, outros já ouviram a história e viram fotos, mas para a maioria é uma novidade. Para esses, digam "olááá Inês" (tipo aquelas reuniões dos AA... Eu: "o meu nome é Inês, e sou ex-obesa"; Todos: "oláááá Inês" - sou só eu que estou a visualizar??!!). Digam olá também ao meu mano e pai ;) e ignorem os outfits dos 90s. Lenços com fartura, jasus!!

 

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O que a maioria das pessoas não sabe, mesmo as que me conhecem bem, é que demorei cerca de 10 anos a aceitar que nunca ia ter o corpo que imaginava. E talvez uns outros 5 ou 6 a aprender a gostar de mim. A gostar mesmo mesmo de mim. Com um peso ainda assim um pouco acima do ideal para a minha altura, mas aceitando que nunca vou ser magra, porque eu adoro comer. Eu ADORO comer. Sou apaixonada por comida. Comer faz-me feliz. E outras coisas também. Mas comer!! É maravilhoso. Adoro. E isso não tem mal nenhum, faz parte de quem eu sou. E que no meio disto tudo, sofri de - e ultrapassei - um distúrbio alimentar.

 

Há uns anos atrás - 8? talvez - já perdi um bocado as contas... não tocava em manga e banana porque tinham muito açúcar. Não tocava. Mas se fosse preciso, no Verão, almoçava só fruta (idealmente as menos calóricas) porque tinha de caber num bikini a seguir. Duma forma geral, a estratégia era a seguinte: contava as calorias de tudo o que comia (clássico) durante o dia, e todas as que ultrapasssavam as 1 200 kcals eu tinha de queimar no ginásio. Mas se apanhasse à frente um pacote de bolachas, e quem diz bolachas diz tudo aquilo que eu não me permitia comer regularmente mas que desejava ardentemente (isto mais parece uma novela mexicana), não sobrava uma para amostra. E depois chorava com a frustração, e recriminava-me e comia outro pacote porque já tinha lixado o dia de qualquer forma. E ficava o resto do dia/ noite a pensar de que forma ia queimar aquilo tudo no ginásio ou poupar nas calorias do dia seguinte para compensar. Nos dias piores, aqueles em me sentia mesmo mesmo no lodo, forçava o vómito e se fosse preciso ia treinar a seguir. Foram talvez 2 anos nisto. Até ao dia em que o pé deu problemas sérios, por negligência alimentar e excesso de exercício de elevado impacto. Óbviamente. Mas foi o abrir de olhos que precisava. Porque me fez perceber, ao não poder treinar durante uns tempos, que tinha uma séria dependência do ginásio e uma relação muito doentia com a comida. O facto de não poder fazer 3h seguidas de aulas por dia causava-me uma ansiedade brutal, porque eu era obcecada com tudo isto... calorias, restrições, e ginásio. Era um ciclo que dominava a minha vida, mesmo quando estava rodeada de família e amigos, estava a pensar no que tinha comido, em como ia queimar, etc, etc, etc.

 

E entretanto, no meio disto tudo, começei a ter ataques de ansiedade graves (taquicárdia, tonturas, e sensação de desmaio frequentes) e uma intolerância à lactose - que só veio a ser diagnosticada alguns anos depois. Não sei se foi o ÓBVIO distúrbio alimentar (hoje é tão claro!!!) que causou ou outros 2, mas acredito que tenha tido alguma influência. Resultado: muitas noites mal dormidas entre crises de ansiedade e de má digestão, algumas idas ao hospital, e toda uma vida a ser desperdiçada. GRAÇ-A-DEUS tive o bom senso de perceber que precisava de ajuda. Nem sei que luzinha iluminada se me deu, mas apercebi-me da gravidade da situação, procurei ajuda, e começei a fazer psicoterapia com uma psicóloga fantástica, que me acompanha até hoje. Eventualmente ultrapassei a situação, aprendi a gostar de mim mesma, voltei a apaixonar-me pela comida, mas de forma muito mais saudável, e hoje em dia sinto que estou verdadeiramente bem. Não sei se posso dizer curada, porque há quem defenda que nunca se cura totalmente um distúrbio alimentar, mas já passavam mais de 6 anos desde a última crise, o que é um sinal muito positivo ;) Hoje em dia continuo a fazer psicoterapia de forma menos regular porque gosto de conversar com a minha médica, que considero quase uma amiga, e porque ela me ajuda a ver as coisas de outra perspectiva e dá-me ferramentas para lidar com coisas menos boas. Mas estou a uma galáxia de distância da pessoa que era quando começei as consultas.

 

E todas estas conversas de comidas boas e más, de aprendermos a gostar de nós, de nos aceitarmos como somos, que cada vez estão mais em voga, mexem comigo. Claro que mexem. Eu sou aquela pessoa que chora a ver o biggest loser. Ou qualquer programa com gordos. Qualquer um. I've been there. E hoje sou uma pessoa saudável, com um peso normal, e super feliz e equilibrada. Voltei a apaixonar-me por mim, e a fazer as pazes com a comida e aqui estamos, felizes, eu e as minhas receitas saudáveis mas que não deixam de ser calóricas e das quais como porções um bocadinho maiores do que devia. Mas estou totalmente em paz com isso. Porque eu ADORO comer (já mencionei isso? ;)), e isso faz parte de quem eu sou.

 

Se dissessem à Inês dos seus (meus?) 25 anos que me sentiria feliz e sexy na minha pele, e que era possível eu não querer devorar um pacote de bolachas, porque efetivamente a maioria das vezes não me apetece mas porque também - FINALMENTE - percebi que posso comer de tudo, de forma equilibrada e saudável e também comer coisas menos saudáveis ocasionalmente e que está tudo bem. Porque dalguma forma, o facto de comer bem faz com que me sinta bem, feliz, e sem vontade de engolir uma lata de leite condensado inteira. Acho que se chama equilíbrio. E o nosso corpo é mesmo fascinante por isto. Quanto estamos em equilíbrio, ele até é um gajo que funciona bem. (E também intolerância à lactose, porque o raisparta do leite condensado me faz mesmo mal ;))

 

O exercício, esse deixou de ser uma forma de punição, e encontrei outras formas de me mexer que me fazem feliz. Na altura deixei o ginásio pela associação que tinha, e mantive apenas as aulas de dança (fazia salsa há 2 ou 3 anos) - assim que o pé me permitiu... e hoje em dia mexo-me porque me faz sentir bem. E a dança tem disso, para além de ser um amor para a vida, é um tipo de exercício que faz bem à alma. Para além da dança (que infelizmente faço menos regularmente agora porque a vida vai acontecendo, e outras coisas se vão colocando no caminho), tento caminhar 15-30 minutos por dia, subo as escadas do trabalho a pé e esta semana voltei, pela primeira vez desde essa altura, a entrar num ginásio. Ok que fui quase obrigada pelo meu fisioterapeuta a fazer Pilates ou Hidroginástica, mas fui, fiz, e senti-me bem. Mais um grande marco nesta história ;)

 

Às pessoas que ainda estão a percorrer esse caminho, quero dizer que eu já aí estive, não é nada fixe, mas um dia vais ser feliz.

 

Muita força. Mas acima de tudo, procura ajuda, e acredita em ti. És única(o), e especial

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